28/01/08

Cantigas de amigo 1

Nesta cantiga de amigo de Bernal de Bonaval, a rapariga partilha com uma confidente não identificada o seu desejo de rever brevemente o amigo, de quem lamenta as ausências demasiado longas.

Bernal de Bonaval – “Se vehess’o meu amigo”

Se vehess’ o meu amigo
a Bonaval e me visse,
vedes como lh’ eu diria
ante que m’ eu d’ el partisse:
“Se vos fordes, non tardedes
tan muyto como soedes”.
Diria-lh’ eu: “Non tardedes,
amigo, como soedes”.

Diria-lh’ eu: “Meu amigo,
se vós a min muyt’ amades,
fazede por mi atanto,
que bona ventura ajades!
Se vos fordes, non tardedes
tan muyto como soedes”.
Diria-lh’ eu: “Non tardedes,
[amigo, como soedes]”.


Que leda que eu seria
se vehess’ el falar migo!
E, ao partir da fala,
diria-lh’ eu: “Meu amigo,
se vos fordes, non tardedes
tan muyto como soedes”.
Diria-lh’ eu: “Non tardedes,
[amigo, como soedes”.

vehess’ – viesse; Bonaval – região do norte peninsular de onde era originário o compositor da cantiga; tan muyto - tanto; como soedes – como costumais; ajades - hajais; leda – contente; migo - comigo

Cantigas de amor 2

Nesta cantiga de amor de Dom Dinis (o rei lavrador e, também, poeta), o compositor propõe-se fazer o elogio da amanda, enumerando as suas virtudes, "em maneira de provençal".

Don Deniz – “Quer’eu em maneira de proençal”

Quer’eu em maneira de proençal
faze agora um cantar d’ amor,
e querrei muit’ i loar mha senhor
a que prez nem fremosura non fal,
nem bondade; e mais vos direi em:
tanto a fez Deus comprida de bem
que mais que todas las do mundo val.

Ca mha senhor quizo Deus fazer tal,
quando a fez, que a fez sabedor
de todo bem e de mui gram valor,
e com tod’ est[o] é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bom sem,
e desi nom lhi fez pouco de bem
quando nom quis que lh’outra foss’ igual.

Ca em mha senhor nunca Deus pos mal,
mais pos i prez e beldad’ e loor
e falar mui bem, e riir melhor
que outra molher; desi é leal
muit’, e por esto nom sei oj’ eu quem
possa compridamente no seu bem
falar, ca nom a, tra-lo seu bem, al.

i – aí; loar – louvar; mha – minha; non fal – não faltam; em - disso; val – vale; gram – grande; mui comunal - muito comum; bon sem - bom senso; desi - disso; nom lhi fez pouco de bem - fê-lo muito bem; prez - mérito; oj’ – hoje; ca nom a, tra-lo seu bem, al – não tem, além do seu bem, nada (quem dela falar só pode falar do seu bem).

Cantigas de amor 1

Nesta cantiga de amor de Johan Soarez Coelho, o narrador recorda um encontro com a sua senhor em que esta o ignorou, não o quis ouvir nem lhe quis falar: não lhe disse mal nem bem. O sofrimento sentido pelo amador foi tal que ele lamenta não ter morrido (tan sen ventura foi que non morri!) já que a morte (mesmo repetida mil vezes) teria sido um sofrimento mais suportável do que o desdém da amada.

Johan Soarez Coelho - “Noutro dia, quando m’eu espedi”

Noutro dia, quando m’eu espedi
de mia senhor, e quando mi-ouv’ a ir
e me non falou, nen me quis oïr,
tan sen ventura foi que non morri!
Que, se mil vezes podesse morrer,
mĕor coita me fora de soffrer!

U lh’eu dizi: “con graça, mia senhor”!
catou-me um pouqu’ e teve-mi en desden;
e porque me non disso mal nen ben,
fiquei coitad(o), e con tan gran pavor
que, se mil vezes podesse morrer,
mĕor coita me fora de soffrer!


E sei mui ben, u me d’ela quitei
e m’end’eu fui, e non me quis falar,
ca, pois ali non morri con pesar,
nunca jamais con pesar morrerei:
que, se mil vezes podesse morrer,
mĕor coita me fora de soffrer!


espedir –despedir; oïr – ouvir; u – quando / onde; mĕor – menor; catar – procurar; quitar – afastar; ca – porque; ende – por isso.

Lírica galaico-portuguesa

Ao longo das próximas semanas, publicar-se-á uma série de textos (ou de excertos de textos) literários que pretendem acompanhar as evoluções da língua portuguesa ao longo dos séculos.

Começaremos, esta semana, por publicar cantigas medievais da lírica galaico-portuguesa (ou galego-portuguesa), isto é, escritas no dialecto galego-português que viria a originar a língua portuguesa (e a galega). Foram produzidas entre os finais do século XII e os inícios do século XIV. As composições mais conhecidas são as cantigas de amor e as cantigas de amigo, mas também existem cantigas de escárnio (sátiras que apontavam personalidades ou grupos sociais) e cantigas de índole religiosa, como as cantigas de Santa Maria, de Afonso X, o Sábio. Escolhemos publicar apenas exemplos de cantigas de amor e de cantigas de amigo. As cantigas apresentadas seguem a edição de Mercedes Brea da Lírica Profana Galego-Portuguesa (Santiago de Compostela, Centro Ramón Piñeiro, Xunta de Galicia, 1996).

As cantigas de amor tiveram como inspiração o amor cortês da cansó provençal. De acordo com o ideal de amor puro dos troubadours occitânicos e com os rituais fortemente devedores do imaginário feudal desta poesia, o poeta devia louvar a sua senhor (a amada). O ambiente é o da corte e, nas primeiras composições, a senhor é geralmente uma mulher casada; posteriormente, os compositores escrevem também para as raparigas solteiras, com dote. Os códigos de conduta a que compositores devem obedecer são severos e ditam regras estritas de cortesia e de discrição. O amador oferece-se à senhor sem revelar o seu nome; esta, altiva e distante, pondera a hipótese de lhe oferecer a sua mercê (a recompensa) ou o desdém. Na maior parte das cantigas é realçada a coita (o sofrimento) do compositor, chegando a encenar-se a morte de amor.

Quanto às cantigas de amigo, diferem das de amor em primeiro lugar porque o sujeito enunciador é uma rapariga, uma novidade relativamente à cansó provençal. Esta rapariga, geralmente afastada do ambiente cortesão das cantigas de amor, partilha com as suas confidentes (a mãe, as amigas, a natureza) os seus sentimentos: a alegria por rever o amigo, as saudades que dele sente ou os planos que faz para o futuro. São cantigas mais realistas, alegres e variadas, explorando uma maior gama de sentimentos. São também cantigas que comportam uma forte carga simbólica e, por vezes, um subtexto erótico. Não se conhecem com rigor as origens das cantigas de amigo, mas supõe-se que uma poesia pré-cortês terá constituído uma tradição peninsular, possivelmente enriquecida com influências da poesia árabe, e que, repensada com a lição trovadoresca, terá influenciado as cantigas de amigo.

20/01/08

Um poema por semana

Noutros Lugares, de Jorge de Sena

Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exactamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.

1967

13/01/08

Trocando em Miúdos - Chico Buarque

Aquela esperança de tudo se ajeitar

Trocando em miúdos (Francis Hime - Chico Buarque, 1978)

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim ?
O resto é seu
Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças

Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter
Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado

Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde

VOCABULÁRIO:
medida do Bonfim – fita típica de Salvador da Baía, usada em torno do pulso com 3 nós, simbolizando 3 desejos que devem ser pedidos e que, segundo a superstição, se realizarão quando o tecido da fita se corroer.
Pixinguinha (1897-1973) – compositor de Música Popular Brasileira (MPB).
ajeitar - resolver (Br. "dar um jeito": arranjar forma de resolver um problema)
empenhar – entregar como garantia ou hipoteca de um empréstimo.
dilacerado – despedaçado, quebrado.
aluguel (Br.), aluguer (Pt.) – renda da casa.
alarde – estrondo, barulho.
saideira (Br.) - última bebida tomada (geralmente de sair de um bar).