Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal, de Sophia de Mello Breyner Andresen
Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre.
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória a luz e o brilho do teu ser,
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mas servirei senhor que possa morrer.
in Mar Novo (1958)
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) é considerada a mais importante poetisa portuguesa. Descendente de uma família de raízes nórdicas, desenvolveu um enorme fascínio pelo Mediterrâneo e, principalmente, pelo mundo clássico grego, que se tornou uma influência fundamental na sua vida e na sua poesia. Misturam-se, assim, na sua obra, o Norte e o Sul, o Atlântico e o Mediterrâneo. Na sua poesia sente-se uma grande admiração pela dimensão ética das civilizações clássicas, pelos valores da liberdade e da justiça (aliás, antes do 25 de Abril de 1974, Sophia fez parte de diversas organizações de resistência à ditadura, e foi depois deputada da Assembleia Constituinte de 1976). A sua poesia procura a simplicidade e a exactidão: os seus poemas são breves, claros, luminosos, limpos. Segundo a sua visão do trabalho poético, o poeta é um mediador entre os deuses e os homens, um descobridor. Também por isso, há na sua obra um enorme fascínio pelo universo das viagens, de Ulisses aos descobridores portugueses. Para além de poesia, Sophia escreveu livros para crianças (A Menina do Mar, A Fada Oriana, O cavaleiro da Dinamarca), uma peça de teatro (Colar) e traduções. Pelo conjunto da sua obra recebeu importantes prémios, como o prémio Camões (o mais importante prémio para autores lusófonos) em 1999, o prémio francês Max Jacob Étranger em 2001 ou o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana em 2003.
Descubra aqui a biografia de Sophia de Mello Beyner Andresen do Centro Virtual Camões.
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10/11/07
02/11/07
Um poema por semana
Imagem: Goya, O Três de Maio de 1808, 1814Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya (1959), de Jorge de Sena
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue».
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Lisboa, 25/6/1959, in Metamorfoses (1963)
Jorge de Sena (1919-1978) foi um poeta, ficcionista e ensaísta português. Grande conhecedor e divulgador da cultura nacional e permeável à cultura universal, Jorge de Sena viveu boa parte da sua vida no Brasil e nos Estados Unidos. A sua obra poética, ancorada no tempo histórico em que viveu, afirma a necessidade de se ser livre no mundo. Nela se conciliam o mundo clássico e o moderno, bem como o rigor e a busca do “excessivo”. Para além da excelente poesia, dos livros de contos e do romance Sinais de Fogo, salienta-se a novela O Físico Prodigioso, ímpar na literatura portuguesa.
Consulte aqui a biografia de Jorge de Sena do Centro Virtual Camões.
Mais informações sobre o quadro de Goya aqui.
28/10/07
Um poema por semana
Viver sempre também cansa (1931), de José Gomes Ferreira
Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até a Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
«Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.»
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…
José Gomes Ferreira (1900 – 1985) foi um poeta e escritor português. Ligado ao movimento neo-realista, o seu empenho cívico valeu-lhe o epíteto de "poeta militante", título de que se serviu mais tarde para o conjunto da sua obra poética. Alguns dos temas recorrentes da sua poesia são a revolta face às injustiças, o remorso e o desconsolo perante a previsibilidade da vida. Para além da poesia, publicou em 1973 Aventuras de João Sem Medo, romance dirigido ao público infantil (mas não só) sobre um rapaz corajoso que se decide a abandonar um país cinzento, enfrentando o medo e conhecendo outros mundos. O livro mereceu do crítico Alexandre Pinheiro Torres as seguintes palavras: "Livro sem qualquer paralelo na literatura europeia de hoje, ganha no confronto em relação a outras célebres alegorias políticas como "Animal Farm" de Orwell, ou as de Karel Capek. É que há (...) uma audácia à Swift ("Gulliver's Travel") de transfiguração e simbologia política que transcendem de bastante longe o burocratismo imaginativo de Orwell ou de Capeck, sem verdadeiras raízes nas tradições populares ou folclóricas que conferem a estas 'Aventuras' o seu carácter único" (citação encontrada aqui).
Consulte aqui a biografia do Centro Virtual Camões.
Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até a Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
«Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.»
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…
José Gomes Ferreira (1900 – 1985) foi um poeta e escritor português. Ligado ao movimento neo-realista, o seu empenho cívico valeu-lhe o epíteto de "poeta militante", título de que se serviu mais tarde para o conjunto da sua obra poética. Alguns dos temas recorrentes da sua poesia são a revolta face às injustiças, o remorso e o desconsolo perante a previsibilidade da vida. Para além da poesia, publicou em 1973 Aventuras de João Sem Medo, romance dirigido ao público infantil (mas não só) sobre um rapaz corajoso que se decide a abandonar um país cinzento, enfrentando o medo e conhecendo outros mundos. O livro mereceu do crítico Alexandre Pinheiro Torres as seguintes palavras: "Livro sem qualquer paralelo na literatura europeia de hoje, ganha no confronto em relação a outras célebres alegorias políticas como "Animal Farm" de Orwell, ou as de Karel Capek. É que há (...) uma audácia à Swift ("Gulliver's Travel") de transfiguração e simbologia política que transcendem de bastante longe o burocratismo imaginativo de Orwell ou de Capeck, sem verdadeiras raízes nas tradições populares ou folclóricas que conferem a estas 'Aventuras' o seu carácter único" (citação encontrada aqui).
Consulte aqui a biografia do Centro Virtual Camões.
19/10/07
Um poema por semana
Caranguejola, de Mário de Sá-Carneiro
- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira -
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.
Não, não estou para mais - não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com este enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar...
Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...
Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...
De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom edrédon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...
Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! Levem-me prà enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.
Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível - por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda -
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.
Paris - Novembro 1915
Mário de Sá-Carneiro, Poemas Completos, edição de Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, 2001
Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) foi um dos fundadores da importante revista modernista Orpheu (1915), pedra basilar do importante movimento modernista português. Tendo estudado em Paris, aí escreveu uma boa parte das suas obras, que se repartem em novelas (A Confissão de Lúcio, Céu em Fogo) e livros de poesia (Dispersão, Indícios de Oiro). Amigo e confidente de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro foi um poeta amargurado e profundamente dividido. Acabou por se suicidar, num quarto de hotel, em Paris.
- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira -
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.
Não, não estou para mais - não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com este enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar...
Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...
Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...
De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom edrédon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...
Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! Levem-me prà enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.
Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível - por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda -
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.
Paris - Novembro 1915
Mário de Sá-Carneiro, Poemas Completos, edição de Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, 2001
Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) foi um dos fundadores da importante revista modernista Orpheu (1915), pedra basilar do importante movimento modernista português. Tendo estudado em Paris, aí escreveu uma boa parte das suas obras, que se repartem em novelas (A Confissão de Lúcio, Céu em Fogo) e livros de poesia (Dispersão, Indícios de Oiro). Amigo e confidente de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro foi um poeta amargurado e profundamente dividido. Acabou por se suicidar, num quarto de hotel, em Paris.
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